Horas antes de participar de uma palestra sobre golpes digitais, Nilson João Neves, de 73 anos, recebeu no celular uma mensagem que pedia a atualização de um cadastro. Havia um problema: o aposentado nunca havia feito aquele cadastro. Desconfiou do link e bloqueou o número.
A situação antecipou uma das principais orientações apresentadas pela PCi-MS (Polícia Científica de Mato Grosso do Sul) na terça-feira (23), na Associação Amor pela Vida, em Campo Grande: diante da urgência, interromper o contato e confirmar a informação antes de clicar, fornecer dados ou transferir dinheiro.
Promovida pelo Núcleo de Computação Forense, a ação reuniu 22 pessoas idosas e integrou as atividades do Junho Prata, campanha voltada à valorização e à proteção dessa população.
A associação mantém atividades gratuitas de convivência, saúde e artesanato para pessoas idosas e prepara um projeto de inclusão digital. Mesmo com a tarde fria, os participantes chegaram acompanhados por filhos e outros familiares. Nilson participou ao lado da esposa, Jane da Silva São Romão, de 76 anos, e da bisneta.

Há pouco mais de um mês, o casal passou a frequentar a associação. Nilson participa das atividades físicas e acompanha Jane nas oficinas de crochê. Em casa, os dois também dividem aprendizados sobre o celular: ela usa o aparelho para conversar com familiares e acompanhar conteúdos no TikTok; ele realiza pagamentos e acessa serviços bancários.
“Hoje eu pago minhas contas de casa. Se não fosse isso, teria que ir ao banco ou à lotérica. A tecnologia facilita muito a vida da gente”, afirmou Nilson.
A familiaridade com os serviços digitais, porém, não elimina os riscos. O aposentado já sofreu um golpe bancário e reconhece que mesmo quem utiliza aplicativos diariamente pode ser enganado. “A gente não está livre de cair. Foi bom para aprender”, disse.
Autonomia com segurança
Jane contou que já recebeu mensagens com promessas de dinheiro e pedidos de pagamento para a liberação de supostos valores. Ao identificar uma abordagem suspeita, evita fornecer códigos ou informações pessoais e conversa com o marido antes de tomar qualquer decisão.
“Eu não passo de jeito nenhum. Tenho que ficar atenta a todas as ligações e mensagens que chegam”, relatou.
Responsável pela palestra, o perito criminal Jefferson Lucena, especialista em Computação Forense e Segurança da Informação, explicou que os criminosos exploram principalmente a pressa, o medo, a confiança e a promessa de vantagem.
Entre os exemplos apresentados estavam pedidos urgentes de Pix, falsos familiares que dizem ter mudado de número, links enviados por SMS, perfis copiados e produtos anunciados por preços muito abaixo dos praticados no mercado.
Também foram abordadas situações em que fotografias, áudios e vídeos são usados para simular pessoas conhecidas. A orientação é interromper o contato e confirmar o pedido por outro canal, utilizando um número já conhecido ou os meios oficiais da empresa ou instituição envolvida.
O perito criminal explicou que perfis públicos e solicitações de desconhecidos podem facilitar o acesso a fotografias e informações pessoais, posteriormente usadas na criação de contas falsas.“O ideal é que você só aceite convite de pessoas que conhece”, orientou.
Mesmo mensagens enviadas por contatos conhecidos devem ser confirmadas por outro canal, porque a conta pode ter sido invadida ou reproduzida por criminosos.
Como medidas adicionais de proteção, o perito recomendou ativar a autenticação em duas etapas, criar senhas fortes, manter os aplicativos atualizados e limitar a exposição de informações pessoais em perfis públicos.

Quando a mensagem se torna vestígio
Além da prevenção, os participantes receberam orientações sobre como agir quando o golpe já ocorreu. Conversas, áudios, números de telefone, perfis, links, horários e comprovantes podem constituir vestígios digitais importantes para a apuração.
A vítima deve evitar apagar mensagens, restaurar o celular ou descartar o aparelho antes de receber orientação. Também é necessário comunicar rapidamente o banco ou a plataforma envolvida, bloquear cartões, alterar senhas, avisar familiares e registrar a ocorrência.
No Núcleo de Computação Forense, celulares, computadores, arquivos e registros digitais podem ser submetidos a exames periciais. O trabalho técnico busca identificar, preservar, analisar e documentar elementos que possam contribuir para a investigação e para a produção da prova técnico-científica.
Durante a atividade, uma maleta com materiais utilizados pela Polícia Científica em exames de locais de crime ficou exposta aos participantes. O recurso permitiu apresentar parte da rotina de identificação, documentação e preservação de vestígios.
O especialista também auxiliou participantes a localizar configurações de privacidade e segurança nos próprios aparelhos. A demonstração aproximou as orientações da rotina de quem ainda encontra dificuldade para acessar essas funções.
Informação para levar para casa
Ao final da palestra, os participantes receberam um folder com dez orientações práticas e escolheram placas com mensagens como “senha e código são secretos”, “antes do Pix, confirme”, “guarde provas”, “não clique em links suspeitos” e “na dúvida, peça ajuda”.
Cada pessoa escolheu a recomendação que considerava mais importante. A dinâmica transformou o conteúdo da palestra em mensagens simples, que poderiam ser fotografadas, lembradas e compartilhadas com os familiares.
Ao final, Jane disse que pretende reforçar os cuidados ao receber mensagens inesperadas e evitar a abertura de links desconhecidos. “Deu para a gente ficar mais alerta com tudo o que vem acontecendo. Foi uma tarde maravilhosa de aprendizagem”, afirmou.
Os participantes também receberam pequenas mudas preparadas para a ação. A entrega encerrou uma atividade voltada não apenas à prevenção de prejuízos, mas à manutenção da autonomia de pessoas que utilizam o celular para conversar, pagar contas, buscar informação e acessar serviços.
Para Nilson, abandonar a tecnologia não é uma alternativa. O caminho é aprender a utilizá-la com mais atenção. “Hoje em dia é necessário aprender. Tem que saber para não cair em golpe”, concluiu.












